O
texto desta semana foi motivado por uma postagem que apareceu numa rede
social e rapidamente foi compartilhada por muitos dos meus amigos, o
que fez com ela aparecesse inúmeras vezes diante dos meus olhos. A
partir do incômodo que a postagem me causou produzi este texto, com
algumas reflexões.
Na tal postagem, um médico ridicularizou o modo como um paciente,
pessoa com pouca escolaridade, expressou seu problema de saúde e
publicou a foto abaixo:
A postura do médico me trouxe à memória um texto do poeta Manuel
Bandeira, muito apropriado como resposta ao posicionamento do rapaz:
Pra mim brincar
Não há nada mais gostoso do que o mim sujeito de verbo no infinito. Pra mim brincar. As cariocas que não sabem gramática falam assim. Todos os brasileiros deviam de querer falar como as cariocas que não sabem gramática.
As palavras mais feias da língua portuguesa são quiçá, alhures e miúde.
(BANDEIRA, Manuel. Seleta em prosa e verso. Org: Emanuel de Moraes.4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. P. 19)
Colocando a relação de Bandeira com a Língua Portuguesa em
contraposição à relação do protagonista da notícia/postagem, podemos
observar que há uma diferença muito grande no que é valorizado por eles
em termos de uso da linguagem.
Existe uma distância entre a chamada norma culta ou norma padrão
(na qual se obedece rigorosamente às regras da Gramática e é empregada
em situações formais – a redação do ENEM, por exemplo) e a norma não-padrão ou norma vulgar
(o termo ‘vulgar’ é empregado aqui sem o menor traço de depreciação, é
apenas a forma como a Linguística se refere à variedade empregada por
pessoas que não conhecem o padrão culto por terem tido pouco ou nenhum
acesso à escolaridade). Entre esses dois extremos, está a linguagem
coloquial, mais flexível que a primeira, mas não tão desobediente como a
segunda.
Essa variação no emprego da linguagem também me trouxe à mente uma
declaração do pedagogo Paulo Freire. Em uma entrevista, a respeito
dessas variantes linguísticas, o pensador afirmou que “(…) oito milhões
de meninos vêm da periferia do Brasil (…). Precisamos respeitar a (sua)
sintaxe mostrando que sua linguagem é bonita e gostosa, às vezes é mais
bonita que a minha. E, mostrando tudo isso, dizer a ele: ‘Mas para a tua
própria vida tu precisas dizer ‘a gente chegou’ em vez de ‘a gente
cheguemo’. ”
Na posição expressa por Freire, ele opta sabiamente pelo ‘caminho do
meio’ de que falam as filosofias orientais: deve haver um equilíbrio. Na
comunicação, esse equilíbrio deve ser buscado tendo-se em mente a
adequação da linguagem à situação de comunicação e ao conhecimento
linguístico que o receptor tem, no caso de o emissor ser alguém que
domina o padrão culto do idioma. Como disse outro eminente professor,
Mário Sergio Cortella, o conhecimento deve servir para encantar as
pessoas, não para humilhá-las.
Assim, as pessoas devem sempre buscar o conhecimento, em qualquer das
áreas com que se identifiquem, mas a linguagem será sempre a ferramenta
para aprimorar esse conhecimento e deve ser empregada sempre pensando
no melhor jeito de expressar as mensagens de maneira que sejam
compreendidas pelos receptores do modo como os emissores a pensaram.
“Falar errado” não é um pecado mortal, é apenas uma consequência dos
vários percalços pelos quais as pessoas podem ter passado ao longo da
sua vida escolar (quando passaram pela escola) ou de uma escolha
proposital do emissor, como fizeram Bandeira e outros modernistas. O que
todos precisam é exercitar a empatia e o respeito ao próximo. E, no
caso de quem domina as diferentes variantes, empregá-las de acordo com a
situação, como recomendou Freire.
E é esse domínio da norma culta e da adequação à situação de comunicação que o candidato deve demonstrar na prova do Enem!
É isso! Até a próxima semana!
Margarida Moraes é formada em Letras pela
Universidade de São Paulo (USP). Com mais de 20 anos de experiência,
corretora do nosso Curso de Redação Online (CLIQUE AQUI
para saber mais) e responsável pela resolução das apostila de
Linguagens e Códigos do infoEnem, a professora é colunista de gramática
do nosso portal. Seus textos são publicados todos os domingos. Não
perca!
O post Algumas Considerações Importantes sobre o ‘”falar errado” apareceu primeiro no infoEnem.
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