No
último dia 10 de janeiro começou a ser aplicada a 2ª fase do vestibular
da Universidade de São Paulo (USP), promovido pela Fundação
Universitária para o Vestibular (FUVEST) e a primeira prova foi de Língua Portuguesa, Literatura e Redação, cuja proposta teve como tema “As utopias: indispensáveis, inúteis ou nocivas?”.
No vestibular 2016,
a FUVEST deixou um pouco de lado as questões sociais (embora elas
possam ser relacionadas a esse tema) e abordou uma questão de cunho
filosófico, causando surpresa em boa parte dos candidatos e dos
professores de Português.
A coletânea da proposta apresentou seis
textos que, por sua vez, contemplaram vários aspectos, positivos e
negativos, das utopias. Tais opiniões deveriam ser lidas com muita
atenção pelos candidatos, já que o comando do tema sugere três opções
sobre as utopias: se elas são indispensáveis, inúteis ou nocivas.
Dependendo do argumento principal, o candidato deveria selecionar
determinados textos da coletânea.
Deste modo, é essencial que o
candidato à FUVEST tomasse uma posição acerca das utopias e argumentasse
a favor da sua opinião, deixando claro se pensa que as utopias são
indispensáveis, inúteis ou nocivas e por quê.
O primeiro texto da coletânea, um verbete, define o que é utopia e lembra que Thomas More publicou, há 500 anos atrás, um livro intitulado Utopia
(1516) no qual relata a vida em uma ilha fictícia chamada Utopia onde a
propriedade privada e a intolerância religiosa foram eliminadas a fim
de se viver em uma sociedade harmônica. O verbete também apresenta os
sentidos positivo e negativo do termo: o primeiro diz respeito a um
ideal político, social ou religioso que culmine em uma sociedade feliz;
já o segundo sentido, o negativo, é relacionado a projetos e planos
irreais, ou seja, fantasiosos.
O segundo texto,
adaptado do filósofo francês Paul Ricouer (1913 – 2005), afirma que a
utopia nos afasta da nossa realidade e do fato de ela ser obrigatória e
nos aproxima de outras realidades possíveis e, assim, destaca as
potencialidades de um grupo que está inserido na ordem vigente.

O terceiro texto,
adaptado de Karl Mannheim, sociólogo judeu (1893 – 1947), afirma que o
desaparecimento da utopia faria com que a humanidade se deparasse com
nenhum ideal e, assim, seria transformada em uma coisa, um mero produto
do impulso. Segundo o autor, o homem sem utopia perderia a vontade de
construir e de compreender a história.
O quarto texto,
adaptado do filósofo francês contemporâneo André Comte – Sponville,
argumenta que é possível e melhor vivermos sem utopias, pois elas são
ineficazes, pois são apenas sonhos, e perigosas quando queremos
realizá-las.
O quinto texto da coletânea, por sua
vez, é um poema do autor brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902 –
1987) no qual o poeta faz um convite ao leitor: viver em um mundo
utópico, mas possível, onde as pátrias não têm fronteiras, onde não há
leis, igrejas, quartéis, dor, ouro e tantas outras coisas nocivas à
harmonia. O candidato, neste momento, poderia ter se lembrado da canção Imagine, de Jonh Lennon (1940 – 1980), ex-integrante dos Beatles,
na qual o músico inglês canta um mundo sem países, sem guerras, sem
religiões e ainda conversa com o ouvinte, dizendo que podem chamá-lo de
sonhador, mas que ele é apenas mais uma pessoa que espera um mundo no
qual vivamos como um só.
Finalmente, o sexto e último texto
da coletânea é também uma adaptação oriunda de Frédéric Rouvillois,
professor francês, que traz a definição fundadora da palavra utopia e a
relaciona com o já mencionado livro de Thomas More: a busca por uma
sociedade perfeita e ideal, um verdadeiro paraíso pacífico no qual não
há diferenças entre os homens e, portanto, uma sociedade livre de
conflitos. Porém, o autor ressalta que, olhando por outro ângulo, essas
condições seriam autoritárias e até genocidas a fim de alcançar essa
perfeição por meio de instrumentos terríveis como a violência.
Este
último texto pode ser relacionado, pelos candidatos que prestam
vestibulares há muito tempo, para cursos concorridos como Medicina, ou
pelos candidatos que tiveram contato com uma das propostas de vestibular da Unicamp 2013 com o texto da revista Superinteressante que aborda o lado bom do pessimismo.
Neste
texto em específico, várias opiniões positivas acerca do pessimismo são
apresentadas ao leitor, inclusive a do filósofo britânico Roger Scruton
acerca do “otimismo inescrupuloso”, ou seja, “aquelas utopias que levam
populações inteiras a aceitar falácias e resistir à razão”. Para ele,
um exemplo desse otimismo exacerbado foi a ascensão do regime nazista
que culminou na 2ª Guerra Mundial.
O candidato que pensa que as
utopias são indispensáveis poderia argumentar que elas expressam a
necessidade de lutarmos contra a nossa realidade a fim de construirmos
uma nova e melhor realidade. Já aquele que as considera inúteis deveria
afirmar que elas são inúteis, pois não passam de meras fantasias e
sonhos, não passando de ilusões. Por fim, o candidato que opinou que as
utopias são nocivas poderia destacar seus perigos ao se tentar atingir a
perfeição por meio da violência e de ferramentas abusivas.
Consideramos
o tema da proposta de redação do vestibular 2016 da FUVEST inovador e
desafiador, já que trata-se de algo complexo e profundo.
*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA
é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual
de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo
funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e
Redação. Foi corretora de redação em importantes universidades públicas.
Além disso, também participou de avaliações e produções de vários
materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da
Educação (MEC).
**Camila é colunista
semanal sobre redação do nosso portal. Seus textos são publicados todas
as quintas! Também é uma das professoras do Programa de Correção de Redação do infoEnem.
O post Análise de Tema da Redação do Vestibular FUVEST 2016 apareceu primeiro no infoEnem.
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