Flamengo 2-1 Inter de Milão - Estádio Giuseppe Meazza ● Mundialito de Clubes 1983




O Mundialito de 1983: A taça não veio, mas o Flamengo brilhou na Itália






Time da decisão. Em pé: Leandro, Raul, Marinho, Mozer, Ademar, Andrade e Júnior. Agachados: Robertinho, Adílio, Júlio César e Peu.

Mesmo clubes muito vitoriosos pelo mundo registram em sua história grandes campanhas que não resultaram em conquistas, mas foram motivo de orgulho. No Flamengo não é diferente: torneios como a Supercopa de 1993 e a Mercosul de 2001, além da arrancada rumo ao terceiro lugar no Brasileirão de 2007, ainda são lembrados com carinho por muitos torcedores.

O mesmo aconteceu anos antes com a participação rubro-negra no Mundialito de Clubes disputado em Milão, em junho e julho de 1983, no qual um Fla que juntava os cacos após perder Zico (vendido à Udinese), bateu gigantes do futebol mundial, mas terminou sem a taça após um polêmico jogo decisivo contra a Juventus. Uma história que vale ser conhecida ou relembrada.

OS PRIMEIROS DIAS SEM ZICO

Em 29 de maio de 1983, diante de mais de 155 mil torcedores no Maracanã, o Flamengo vencia o Santos por um enfático 3 a 0 – gols de Zico, Leandro e Adílio – e sacramentava a conquista de seu terceiro título brasileiro, num campeonato no qual entrou bastante desacreditado, conviveu com crises, mas, como era do feitio rubro-negro, cresceu na reta final e ficou com a taça numa das mais antigas expressões do tradicional “deixou chegar”.

As semanas que seguiram à conquista, no entanto, não foram mera ressaca das comemorações do caneco nacional. Na verdade, nem tudo foi festa e notícia boa. Para Zico, Júnior, Leandro e Adílio não houve nem tempo de festejar: na noite do título eles embarcaram para Munique, onde participariam do jogo festivo de despedida do craque alemão Paul Breitner, em que um time de astros internacionais (incluindo o quarteto rubro-negro) enfrentaria o Bayern.

Quando voltaram, a bomba já havia caído sobre a Gávea: em 2 de junho o presidente do clube, Antônio Augusto Dunshee de Abranches, anunciava a venda de Zico à Udinese por Cr$ 2 bilhões em moeda da época. O acerto, porém, ainda teria muitas idas e vindas, mas acabaria confirmado. Ficou famosa a sequência de fotos em que Dunshee simula enxugar suas lágrimas de pesar pela venda do ídolo numa camisa 10 rubro-negra, mas aparece sorrindo no instante seguinte.

Inconsolável, órfã, a torcida nem se deu ao trabalho de ir ao Maracanã nos dias 3 e 5 de junho, quando o Fla – já sem chance de classificação – fez suas duas últimas partidas pela primeira fase da Libertadores daquele ano. Num contraste extremo com o público que passou pelas roletas do estádio no jogo contra o Santos, apenas 1.629 torcedores foram ver o time, já sem Zico, golear o Bolivar por 5 a 2. E apenas 6.145 assistiram à derrota para o Grêmio por 3 a 1.

 

Um dos destaques do time gaúcho que derrotou um desmotivado Flamengo naquela tarde de domingo num gramado castigado havia sido Tita, que deixara a Gávea por empréstimo no começo daquele ano em busca de uma chance de enfim vestir a camisa 10 que considerava a sua – mesmo que não fosse a rubro-negra. Por ironia, agora que Zico dizia adeus e rumava para o futebol italiano, Tita não estava no Flamengo para a esperada passagem do bastão.

O herdeiro inicial da camisa 10 seria Adílio, que demonstrava confiança em honrá-la ao lembrar que havia sido exatamente com ela, e no lugar de Zico, que estreara no time de cima do Flamengo em setembro de 1976, num jogo contra o Sport pelo Brasileirão. Muito elogiado por sua atuação impecável na decisão contra o Santos, com a qual se redimira das críticas sofridas no início do ano, Adílio – que acabara de se tornar pai – vivia momento de maturidade.

O técnico rubro-negro Carlos Alberto Torres não descartava, no entanto, aproveitar outros dois jogadores os quais via como talhados para a função de terceiro homem do meio-campo: Leandro e Júnior. Na cabeça do treinador havia até uma lista de virtudes indispensáveis para os candidatos à camisa 10: chutar forte com os dois pés; ser bom cabeceador; ter criatividade; ser habilidoso no trato com a bola e no drible; ter muita decisão nas disputas de bola.

UM TRAUMA EM ÚDINE

O novo Flamengo foi testado primeiro num amistoso diante do Uberlândia no Parque do Sabiá, exatas duas semanas após a última partida, contra o Grêmio. Mas o início da nova era não foi dos mais auspiciosos: jogando mal, o time até saiu na frente, com um gol de falta de Júnior, mas terminou derrotado de virada pela equipe mineira por 2 a 1. No dia seguinte, a delegação rubro-negra já estava de novo no Rio, de onde embarcaria para a Itália.

Entre os dias 24 de junho e 2 de julho, o Flamengo participaria em Milão da segunda edição do Mundialito de Clubes, torneio criado pela emissora de televisão Canale 5 reunindo clubes que já haviam conquistado o título mundial. A primeira edição havia sido realizada em 1981 e teve como participantes a dupla local Internazionale e Milan mais três convidados: o Santos, o Peñarol e o Feyenoord holandês – o caneco terminou nas mãos da Inter de Milão.

O pica-pau símbolo do Canale 5 na logo do torneio.

Agora, na edição de 1983, além das duas equipes milanesas, do Flamengo e do Peñarol (os dois últimos campeões mundiais), o torneio abria espaço para a Juventus, que ainda não havia vencido o título intercontinental, mas fora convidada como representante da Itália. As cinco equipes se enfrentariam em turno único, em cinco rodadas duplas disputadas a cada dois dias no lendário estádio San Siro. E o título seria do time que somasse mais pontos.

DENUNCIAR ESTE ANÚNCIO

Antes disso, porém, haveria um amistoso. O adversário era a Udinese, na despedida do atacante iugoslavo Ivica Surjak do time italiano e a estreia daquele que o substituiria em uma das duas vagas reservadas aos jogadores estrangeiros no elenco: Zico. Numa situação que nem o jogador nem a torcida rubro-negra nunca imaginaram nem desejaram que um dia pudesse acontecer, o Galinho e o Flamengo estariam, por breves cinco minutos, em lados opostos.

Quando Zico pisou o gramado do estádio Friuli, aos 40 minutos da etapa inicial, a Udinese vencia por 2 a 1. Havia acabado de marcar o segundo gol, com o meia Massimo Mauro, depois de Surjak ter aberto a contagem e Adílio – vestindo a 10 – ter empatado um minuto depois. O Galinho deu apenas dois toques na bola e não participou do terceiro gol italiano, marcado pelo atacante Pietro Paolo Virdis. E sairia no intervalo, substituído por Giorgio de Giorgis.

O time rubro-negro ainda parecia atônito por ter presenciado seu grande regente vestir a camisa do adversário quando outro brasileiro, Edinho, anotou o quarto gol da Udinese cobrando falta na metade do segundo tempo. Marinho ainda diminuiria, mas a atuação fraca numa partida que, no íntimo, muitos desejavam que não tivesse sido realizada (os próprios dirigentes do Flamengo a classificariam como “um erro”) levou Carlos Alberto a pensar em mudanças.

O time também demonstrava cansaço: enfrentara a Udinese no dia seguinte ao desembarque na Itália após um voo de 11 horas seguido de uma viagem de ônibus que durou mais seis horas até Údine. Em Milão, mais ambientado e descansado, o time poderia jogar melhor contra a Inter, acreditava Carlos Alberto. Mas o treinador mexeria no time: Figueiredo entrava no lugar de Mozer na zaga e Andrade, voltando de cirurgia, substituiria Élder no meio-campo.

A equipe que enfrentou a Inter de Milão na estreia.

ENFIM, O MUNDIALITO

A Inter, terceira colocada no Campeonato Italiano recém-encerrado (atrás apenas da Roma de Falcão e da Juventus), tinha muitos nomes da Azzurra: os laterais Giuseppe Bergomi e Giuseppe Baresi (irmão mais velho de Franco Baresi, do Milan), o líbero e capitão Graziano Bini, o volante Salvatore Bagni, o meia Gianpiero Marini e o atacante Alessandro Altobelli – estes dois últimos iniciariam a partida do banco, entrando no decorrer do jogo.

No gol, um novato chamado Walter Zenga assumia a titularidade após a saída do veterano Ivano Bordon para a Sampdoria ao fim da temporada. Havia ainda os meias Antonio Sabato (que atuaria pela seleção olímpica da Itália nos Jogos de Los Angeles no ano seguinte) e Evaristo Beccalossi, armador talentoso, ídolo histórico da torcida interista, com nome de craque rubro-negro, mas que estranhamente nunca chegou a ter chance na Azzurra.

   

Havia, é claro, os astros estrangeiros: o habilidoso armador Hansi Müller, da seleção da Alemanha Ocidental, ditava o ritmo no meio-campo, enquanto o brasileiro Juary, atacante veloz e esperto revelado pelo Santos, incomodava as defesas. E, especialmente para o torneio, a Inter contou também por empréstimo, em caráter experimental, com o ponteiro René Van Der Gijp, jogador da seleção da Holanda que atuava pelo Lokeren, da Bélgica.

O Fla, por sua vez, tinha sob as traves um Raul em forma excepcional e vivendo o último ano da carreira. Nas laterais, Leandro e Júnior buscavam compensar a ausência de Zico participando mais da criação de jogadas. Na zaga, para o jogo de estreia, Figueiredo jogaria na sobra, com Marinho num combate mais direto com o ataque da Inter. No meio, Vitor ficaria mais fixo na cabeça de área, liberando o apoio de Andrade, juntando-se ao novo 10, Adílio.

Júnior bate a falta. Zenga atento no gol. Hansi Müller na barreira. Bergomi, Baltazar e Robertinho (camisa 7) apenas observam.

Na frente, o time contava com a velocidade e os dribles de Robertinho pela direita, um jogador mais agudo e que combinava bem com Leandro. Pelo meio, Baltazar brigava com os zagueiros e abria espaços na defesa adversária. Já pela esquerda, o garoto Júlio César, revelação do Brasileiro de 1983, compunha o meio-campo, combatia e se movimentava para que especialmente Júnior e Adílio tivessem liberdade tática para criarem as jogadas ofensivas.

Mesmo assim, o time rubro-negro teve muita dificuldade no primeiro tempo. Embora ocupasse a intermediária adversária, não conseguia se infiltrar na área da Inter e levava pouco perigo nos chutes de média e longa distância. Além disso, sofria com os contragolpes italianos, em jogadas trabalhadas pelo lado esquerdo ou em lançamentos longos pelo meio, nas costas da defesa. Num deles, a Inter abriria o placar logo aos dez minutos de partida.

A jogada começou na esquerda, com Van der Gijp, que entregou a Beccalossi. O camisa 10 da Inter percebeu o avanço do líbero Bini e fez o lançamento no meio da retaguarda rubro-negra. O capitão interista entrou na área, mas Raul travou sua finalização com as pernas. A bola, porém, sobrou quase na pequena área para Juary, que tocou para o gol aberto anotando o primeiro tento daquela edição do torneio, para a vibração da torcida local.

Antes dos 20 minutos, os italianos ainda criaram duas chances claras para ampliarem o placar. Primeiro num cruzamento de Juary da direita que Van Der Gijp dominou sem marcação dentro da área e soltou um petardo que carimbou o travessão. E mais tarde num contra-ataque de dois contra um em que Bagni foi lançado acompanhado apenas por Marinho e passou a Juary, mas o chute cruzado do brasileiro passou a milímetros da trave, para a sorte do Fla.

   

A VIRADA ANIMADORA DIANTE DA INTER

Leandro escora o escanteio no lance do primeiro gol.

Só depois desse lance o Flamengo obrigou Zenga a trabalhar pela primeira vez, espalmando um chute de fora da área de Júnior. Em seguida, seria a vez de Vítor levar perigo ao goleiro interista numa finalização. As duas jogadas estabilizaram o time rubro-negro no jogo. A partir dali o Fla equilibrou as ações e, aos 27 minutos, chegou ao gol de empate: Júnior bateu escanteio alto, na segunda trave. Leandro escorou e Robertinho testou firme para as redes.

Se já nos minutos finais do primeiro tempo o Flamengo demonstrava um maior acerto no toque de bola e no posicionamento, na segunda etapa os papeis do início da partida seriam invertidos. Agora era o Fla que não dava espaços à Inter, combinava-se melhor no meio-campo e chegava com perigo em lançamentos em profundidade. Num deles sairia o gol da virada: Andrade faria o passe longo nas costas da defesa e Baltazar chegaria antes de Zenga para marcar.

Depois daquele segundo gol, aos 14 minutos da etapa final, o Flamengo ainda criaria ocasiões para aumentar a vantagem. Quase no lance seguinte, Robertinho tabela com Baltazar e é travado de maneira faltosa por Giuseppe Baresi quando se preparava para finalizar. Aparentemente, o toque é dentro da área (ou, no mínimo, em cima da linha), mas o árbitro marca apenas um tiro livre no interior da meia-lua. A cobrança de Júnior, no entanto, para na barreira.

Minutos mais tarde, Andrade lança Baltazar num contra-ataque e, após troca de passes com Adílio, Robertinho chuta cruzado tirando tinta da trave de Zenga. A Inter mexe no time, fazendo entrar o experiente armador Marini e o goleador Altobelli. Este logo aparece em duas chances de gol, mas o Fla leva a melhor em ambas. Primeiro é Raul que detém seu chute cruzado. E depois é Figueiredo que faz o desarme perfeito, tirando o doce da boca do italiano.


 

No fim, o Flamengo já inegavelmente controlava o jogo, intransponível na defesa e perigoso no ataque, fazendo com que, ao apito final, os cerca de 55 mil torcedores que ocupavam o San Siro reconhecessem a grande atuação e o mérito da vitória, aplaudindo efusivamente o time rubro-negro. Do lado do Fla, Carlos Alberto Torres se mostrava feliz com a melhora da equipe: “Subimos de produção aos poucos e no segundo tempo a partida foi toda nossa”.

A imprensa italiana também não poupou elogios, considerando “de alto nível” o futebol exibido pelo Flamengo. Os jornais destacaram especialmente Raul (tido como um goleiro veterano da qualidade de Zoff) e Júnior – os dois receberam nota 7,5 na avaliação do exigente Corriere dello Sport, que não costumava dar notas acima de 7. Já para Eugenio Bersellini, ex-técnico da Inter e então no Torino, Leandro e Júnior eram os dois maiores laterais do mundo.

Júnior era particularmente assediado pela imprensa devido a rumores de uma transferência para a Lazio, clube que havia acabado de ter seu controle diretivo assumido pelo ex-atacante Giorgio Chinaglia. O Capacete, porém, minimizava a possibilidade: “Chinaglia disse que eu seria a atração do time e não ficaria mais na lateral-esquerda, e sim no meio-campo. No entanto, sua proposta foi muito pequena, quase o que eu ganho no Flamengo”, declarou após o jogo.

O SUSTO CONTRA O MILAN

No jogo de fundo, concluindo a rodada de abertura, o Peñarol venceu o Milan por 1 a 0, gol de Fernando Morena, de pênalti. A equipe uruguaia seria a antítese do Flamengo: com seu jogo retrancado e violento, não tardou a conquistar a manifesta antipatia do público. A ponto de, na segunda rodada, após sua vitória sobre a Inter por 2 a 1, um grupo de irritados torcedores locais terem tentado invadir o campo para bater nos jogadores carboneros.

O Flamengo folgou na segunda rodada, que registrou ainda o empate em 2 a 2 entre a elegante Juventus de Michel Platini e o valente Milan, que acabara de voltar do purgatório da Serie B. A equipe de Turim havia saído na frente com um gol do meia francês após cruzamento do atacante polonês Zbigniew Boniek, mas os rossoneri viraram com gols de Stefano Cuoghi e Aldo Serena. A três minutos do fim, porém, Paolo Rossi deixou tudo igual de novo.

O Milan, adversário seguinte do Flamengo, era a equipe de menor qualidade técnica entre os três italianos do torneio. Mas vinha embalado por ter conseguido retornar à divisão de elite do país e ainda por cima jogava em casa, empurrado por sua fanática torcida. Contava ainda com jogadores que logo se firmariam na seleção italiana, como o lateral Mauro Tassotti, o meia (então lateral) Alberrigo Evani, o líbero Franco Baresi e o atacante Aldo Serena.


Já o Flamengo levou a campo o mesmo time que venceu a Inter de virada. Mas, estranhamente, parecia ter esquecido seu futebol naquela partida. O time até começou bem, e Adílio acertou a trave do goleiro Giulio Nuciari antes dos dez minutos. Mas no restante do jogo, a equipe esteve francamente irreconhecível, frouxa na marcação, levando um sufoco sem fim, completamente envolvida pelo Milan, que perdeu chances inacreditáveis.

Serena, impedido, abre o placar para o Milan.

Com Raul fazendo um milagre atrás do outro e Marinho jogando por todo o setor defensivo, o Flamengo ia se segurando até os 35 minutos do primeiro tempo, quando o Milan abriu o placar. A grande ironia é que, mesmo senhores absolutos da partida e criando oportunidades para aplicar uma goleada histórica, os italianos tiveram de se valer de um gol irregular, com Serena impedido ao cabecear um cruzamento da esquerda, para saírem em vantagem.

Além dos erros de marcação, dos espaços e da falta de combatividade que levavam aos seguidos ataques do Milan, os jogadores do Fla também tinham dificuldades para trocar passes e até para se manterem de pé no gramado escorregadio pela forte chuva que caiu antes da partida. Mesmo assim, o time ainda sairia no lucro ao conseguir empatar com um gol de Marinho, de cabeça, após falta levantada na área por Júnior, aos 34 minutos da etapa final.

Mesmo com o empate no fim, o time deixou o campo atordoado. “Nunca vi coisa assim”, disse Carlos Alberto Torres. Raul, por sua vez, chegou a temer a goleada: “Por cinco ou seis vezes eu já estava preparado para aceitar o gol e não sei como a bola não entrava. Foi um jogo incrível. É claro que nós facilitamos muito. A defesa parecia hipnotizada. Confesso que nunca passei por uma situação dessas”. Após o quase desastre, as mudanças viriam.

A REVANCHE CONTRA O PEÑAROL

Foram quatro as trocas na equipe titular para o jogo contra o Peñarol – que vinha de empate em 0 a 0 com a Juventus na preliminar de Flamengo x Milan e poderia ser campeão caso vencesse o Fla. Na zaga, Mozer entraria no lugar de Figueiredo. Recuperado de lesão no tornozelo esquerdo, o novo titular já havia entrado durante a partida contra o Milan. Júnior passaria de vez para o meio-campo, com o garoto Ademar entrando na lateral. Vítor saía do time.

Na frente, Baltazar e Júlio César – este, muito criticado pelo espaço que deu na marcação na partida contra o Milan – cediam seus postos a outro garoto, o centroavante Vinícius, que estreara nos profissionais no amistoso de Uberlândia e entraria pela primeira vez como titular, e a Peu, que retornava ao clube naquele torneio após ter jogado o Brasileiro emprestado ao Atlético-PR. A expectativa era a de um time mais acertado em todos os setores.


Contra os uruguaios, havia ainda um clima de revanche. Afinal, era o mesmo adversário que, sete meses antes, havia eliminado o Fla em pleno Maracanã nas semifinais da Taça Libertadores da América de 1982, impedindo um possível bicampeonato consecutivo do torneio. Em Milão, o time do Peñarol era quase o mesmo daquela partida. A exceção era o meia brasileiro Jair, ex-Internacional, exatamente o autor do gol que derrotou os rubro-negros naquele dia.

O time do Peñarol, o mais odiado do Mundialito pelo público.

O time carbonero começou a partida tentando colocar em prática o mesmo estilo de jogo que vinha desempenhando até ali no Mundialito: fechado na defesa, procurando os contra-ataques pelas pontas e abusando do jogo violento. Mas o Flamengo, com um meio-campo bem compacto, tendo Andrade, Adílio e Júnior apoiados pelos avanços de Leandro e Mozer e pelo recuo de Peu, trocava passes para envolver os uruguaios e forçava a saída do adversário.

Robertinho também era peça importante, com sua rapidez e seus dribles ajudando a desmontar a defesa uruguaia pelos flancos. Por meio dele o Fla teria sua primeira jogada de perigo: uma falta dura de Juan Morales (o Peñarol começava a abrir a caixa de ferramentas) cobrada por Júnior na área teve desvio de cabeça do camisa 7 e passou perto da trave de Gustavo Fernández. Pela esquerda, Ademar – vestindo a 8 – também descia bem no apoio.

O Peñarol provocou a primeira grande confusão aos 15 minutos, quando, com o jogo paralisado, o zagueiro Washington Oliveira deu uma solada no joelho de Peu e o tempo fechou. Andrade foi para cima do uruguaio tirar satisfações e acabou empurrado. Depois, o mesmo jogador bateu boca com Júnior. A torcida italiana gritava “fuori, fuori”, pedindo a expulsão imediata do zagueiro carbonero, mas o árbitro Maurizio Mattei aplicou apenas o cartão amarelo.

Quase no mesmo instante, o Flamengo teve de fazer sua primeira substituição, quando Vinícius, que sofrera duas entradas duas nos primeiros dez minutos, não teve mais condição de seguir na partida. Em seu lugar entrou Baltazar. E logo depois, uma bonita troca de passes entre os rubro-negros na intermediária uruguaia foi interrompida na meia-lua quando o meia Mario Saralegui cortou com a mão um passe pelo alto de Peu para Baltazar.

Júnior e Adílio se posicionaram para a cobrança, que ficou com o Capacete. A bola viajou por sobre a barreira, pegou Fernández no contrapé e entrou no ângulo. Um golaço. Mas a arbitragem seguia contemporizando: Fernando Morena, impedido, obrigou Raul a trabalhar pela primeira vez no jogo, detendo um chute à queima-roupa. Mais adiante, o lateral Victor Diogo cortou com o braço dentro da área um centro de Baltazar, mas o signore Mattei deixou seguir.

Robertinho disputa a jogada com a defesa uruguaia.

O Flamengo era melhor no primeiro tempo, ainda que chutasse pouco a gol. Uma das finalizações, aliás, viria perto do fim, num chutaço de Júnior batendo uma falta de muito longe e quase surpreendendo Gustavo Fernández. O cenário, porém, ameaçou se modificar no início da etapa final, com o Peñarol passando a adotar uma postura mais ofensiva, além do gramado escorregadio em decorrência da chuva que começou a cair no intervalo.


Mas isso durou apenas cerca de dez minutos. Logo o Fla recuperou o controle e assustou num foguete de Mozer em cobrança de falta e em duas ótimas jogadas de Baltazar descendo pela esquerda, em raros momentos nos quais ele não se posicionou em impedimento. Na segunda, ele ganhou na corrida de Saralegui, entortou Oliveira com um lindo drible e centrou rasteiro. Mas nem Robertinho, nem Adílio chegaram a tempo de concluir.

O jogo voltou a ficar quente na metade do segundo tempo. Júnior passou a bola por entre as pernas de Nelson Gutiérrez e, na sequência, levou uma entrada dura de Oliveira, mas não deixou barato e deu o troco. O juiz fez vistas grossas. Minutos depois foi a vez de Andrade, prestes a entrar na área com bola dominada, receber um pontapé de Gutiérrez na altura do estômago e se revoltar ao perceber que o árbitro novamente nada marcou.

O Fla respondia na bola: minutos depois de Robertinho quase ampliar no rebote de uma falta batida por Ademar, veio o segundo gol. Andrade despachou a bola para o campo de ataque e ela encontrou Peu descendo em velocidade pela esquerda. O atacante percebeu a passagem de Baltazar pelo meio e entregou de primeira. O centroavante invadiu a área e fuzila Fernández. O gol tranquilizou o Flamengo, que enfim conseguia definir o jogo.

Foi a senha para que a torcida de Milão começasse a gritar “olé” a cada toque de bola do Fla, que colocou os uruguaios na roda. Após o apito final, os jogadores do Peñarol ainda tentaram arrumar uma nova confusão: Oliveira, que em campo prometera quebrar a perna de Júnior, ameaçou agora bater no jogador do Fla no hotel – as duas delegações estavam hospedadas no mesmo Jolly, em Milão. Mas após uma acalorada discussão, os dois foram apartados.

O TÍTULO QUE ANDOU TÃO PERTO


O time uruguaio dava adeus ao torneio com cinco pontos ganhos em quatro jogos, enquanto o Flamengo já somava a mesma pontuação, mas com uma partida a menos. Havia ainda a Juventus, que chegou aos quatro pontos ao derrotar a Internazionale por 1 a 0 no jogo de fundo graças a um gol do zagueiro reserva Massimo Storgato. Com isso, os rubro-negros precisavam apenas de um empate com os bianconeri no confronto direto da última rodada.

A Juve havia montado um grande esquadrão na temporada recém-encerrada, acrescentando à sua equipe – que já formava a base da seleção italiana campeã do mundo – dois dos jogadores mais aclamados daquela Copa: o francês Michel Platini e o polonês Zbigniew Boniek. Porém, a primeira campanha havia sido de decepções, perdendo o título italiano para a Roma de Falcão e a Copa dos Campeões para o Hamburgo. Como consolo, venceu a Copa da Itália.

Antes do Mundialito, a Vecchia Signora se despedira do veterano goleiro Dino Zoff, aposentado aos 42 anos. Seu lugar era ocupado pelo antigo reserva Luciano Bodini. De todo modo, continuava um time respeitável. Na defesa, havia Claudio Gentile (que marcara duramente Zico no fatídico Brasil x Itália do Sarriá), o líbero Gaetano Scirea e o talentoso lateral-esquerdo Antonio Cabrini. No meio, o dinâmico Marco Tardelli. Na frente, o goleador Paolo Rossi.

Se não chegara a brilhar em nenhuma das partidas, empatando em 2 a 2 com o Milan e em 0 a 0 com o Peñarol e vencendo a Inter por 1 a 0, reunia o maior contingente de talento e experiência entre os demais participantes. Um duro adversário para o Fla, que teria uma mudança na equipe: a volta de Júlio César para reforçar a contenção no meio-campo, liberando a criatividade de Adílio e Júnior, com Robertinho e Peu formando a dupla de ataque.

O jogo começou bem movimentado, com o Flamengo ocupando o campo de ataque e deixando espaços para a Juventus se arriscar nos contragolpes. Mas a arbitragem de Enzo Barbaresco logo se fez notar: aos 12 minutos, Marinho desarmou Paolo Rossi limpamente na intermediária, mas o juiz apitou falta. Platini bateu forte e rasteiro, a bola desviou em Peu na barreira e traiu Raul, tomando o rumo das redes. Mas o Flamengo não se abalou.

Assim, pouco depois de uma bonita troca de passes do time rubro-negro que só não terminou em gol pelo corte providencial de Scirea na hora da finalização de Adílio, o empate veio aos 20 minutos. Júlio César ajeitou para o chute de Júnior, mas a bola bateu em Giuseppe Furino e sobrou para Adílio. Da entrada da área, o camisa 10 encheu o pé esquerdo e acertou o canto de Bodini. Um resultado mais condizente com o que se via em campo.

A virada quase veio em dois momentos. Aos 35, após mais uma troca de passes na entrada da área da Juventus que terminou aos pés de Leandro. O cruzamento do lateral resvalou em Cabrini e obrigou Bodini a mergulhar ao pé da trave para espalmar para escanteio. E aos 41, um chute com efeito de Peu quase traiu o arqueiro da Juve, que não conseguiu segurar de primeira, mas teve agilidade para se recuperar e travar a tentativa de Robertinho no rebote.


O Flamengo, porém, sofreria um duro baque ainda antes do fim do primeiro tempo: Mozer, que vinha cumprindo atuação excelente na defesa, chocou-se de cabeça com Scirea ao afastar um cruzamento para escanteio e teve de deixar o jogo na maca, substituído por Figueiredo. Na volta para o segundo tempo, o panorama do jogo seguiu com o Fla tocando a bola no meio-campo, procurando espaços na defesa da Juve, que explorava os contra-ataques.

Marinho e Boniek, o polonês da Juve: duelo frequente na decisão.

Num deles, aos 17 minutos, os italianos passaram novamente à frente: o lançamento de Gentile encontrou Boniek à frente de Marinho, em posição irregular. Mas a jogada seguiu, o polonês avançou e bateu forte da entrada da área, sem chance para Raul. Imediatamente, Carlos Alberto Torres colocou Baltazar em campo no lugar de Júlio César. Mas o Flamengo nitidamente sentiu o segundo gol, enquanto a Juventus cresceu e se organizou melhor em campo.

O Fla se mandou todo para o ataque, deixando apenas os dois zagueiros no campo de defesa. E, sem conseguir furar a sólida defesa da Juventus, sofreu com os incontáveis contra-ataques. Num deles, Paolo Rossi chegou a driblar Raul, mas perdeu o ângulo e viu sua finalização bater no pé da trave e correr sobre a linha, antes de Ademar aparecer para afastar. O goleiro rubro-negro ainda brilhou em outras três situações, parando Boniek, Rossi e Cabrini.

Houve ainda uma boa chance aos 33 minutos em falta sofrida por Adílio próxima à área: Ademar cobrou com chute forte de perna esquerda, Bodini não segurou, mas a finalização de Robertinho no rebote acertou o zagueiro Nicola Caricola. Houve, sobretudo, o pênalti escandaloso de Furino, agarrando Júnior pela camisa e pelo pescoço, quando o camisa 5 havia entrado na área pelo lado direito, aos 37 minutos. Inacreditavelmente, Barbaresco deixou seguir.

E houve, na última volta do ponteiro, a derradeira chance do empate quando Andrade esticou um passe para a área e Baltazar surgiu no meio da defesa para desviar a bola de Bodini. Mas ela, caprichosamente, passou rente à trave para fora. Ao apito final, mesmo com a derrota amarga, os jogadores do Flamengo saíram aplaudidos e de cabeça erguida. A impressão deixada pela equipe na imprensa italiana havia sido bastante positiva.

A delegação retornou ao Rio quatro dias após a partida e foi recepcionada no Galeão por muitos torcedores, que reconheceram a honrosa participação do Flamengo no Mundialito. Se o troféu não veio na bagagem, pelo menos o time havia colecionado grandes atuações nas vitórias sobre a Internazionale e o Peñarol e em parte do jogo contra a Juventus, além de ter demonstrado muita técnica e espírito de luta. O orgulho do campeão seguia intacto.

Postar um comentário

0 Comentários