O Ethos Militar: A construção histórica da PMERJ intrinsecamente atrelada ao Exército Brasileiro, consolidando os pilares da hierarquia e disciplina.

 





O Ethos Militar: A construção histórica da PMERJ intrinsecamente atrelada ao Exército Brasileiro, consolidando os pilares da hierarquia e disciplina.

A construção da identidade institucional da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) não pode ser dissociada da trajetória do Exército Brasileiro, evidenciando um fenômeno de mimetismo organizacional que remonta à fundação da Guarda Real de Polícia em 1809. Sob a influência da vinda da Família Real portuguesa, o modelo de segurança pública adotado na Corte foi concebido como uma extensão do poder militar soberano, destinado a garantir a estabilidade do regime contra ameaças internas e externas. Esse vínculo originário estabeleceu as bases para que a corporação incorporasse, de forma indelével, a doutrina, a estética e os valores da força terrestre, consolidando o que se define como um ethos militar pautado pela prontidão bélica e pelo controle social verticalizado (ARANTES, [s.d.]; SEPM, 2023).

A centralidade dos pilares da hierarquia e da disciplina na PMERJ funciona como o eixo gravitacional que sustenta a estrutura administrativa e operacional da instituição. A hierarquia, compreendida como a ordenação da autoridade em níveis diferenciados dentro da estrutura da corporação, e a disciplina, enquanto o acatamento integral às leis e regulamentos que fundamentam o serviço, não são meros instrumentos de gestão, mas valores éticos que moldam a subjetividade do policial militar. Esse ordenamento rígido é um reflexo direto do isomorfismo com o Exército Brasileiro, onde a eficácia da tropa é medida pela capacidade de resposta coordenada sob um comando centralizado, replicando a lógica de prontidão para o combate no cenário da segurança pública urbana (ARANTES, [s.d.]; SENASP, 2026).

Historicamente, a vinculação legal e doutrinária entre as Polícias Militares e o Exército foi reforçada por marcos normativos que as classificaram como forças auxiliares e reserva da força terrestre. Essa condição jurídica, consolidada em diversos períodos republicanos e mantida pela Constituição de 1988, perpetua o isomorfismo organizacional, fazendo com que a PMERJ adote postos, graduações e ritos de passagem idênticos aos militares. Esse mimetismo estrutural reflete a visão de que a preservação da ordem pública é uma missão de natureza análoga à defesa da pátria, onde o território urbano é frequentemente percebido sob a lógica do teatro de operações (SCIELO, 2021; BRASIL, 1988).

A construção desse ethos militarizado impõe desafios significativos para a transição em direção a modelos de policiamento orientados pela cidadania. A ênfase na disciplina rígida e no distanciamento entre superiores e subordinados pode, em determinados contextos, inibir a autonomia decisória necessária para o policiamento comunitário e para a mediação de conflitos. Quando a identidade institucional está excessivamente atrelada ao paradigma do combate, o cidadão pode vir a ser percebido através da dicotomia "aliado ou inimigo", o que dificulta a implementação de uma ética da cidadania onde a polícia atua como garantidora de direitos fundamentais e não apenas como força de repressão (SENASP, 2026; REVISTA ORDEM PÚBLICA, [s.d.]).

The internalização do ethos militar começa no processo de formação, onde o treinamento é desenhado para forjar o "espírito de corpo" e a resistência física e psicológica. Esse período de aculturação busca alinhar o comportamento do indivíduo aos padrões institucionais de obediência e sacrifício. No Rio de Janeiro, a história da formação policial militar evidencia uma constante tensão entre a necessidade de capacitação técnica para o atendimento ao cidadão e a preservação da tradição militar que prioriza a ordem e o controle social. A educação policial militar, portanto, atua como o mecanismo de reprodução desses valores históricos, garantindo a longevidade dos pilares da hierarquia e da disciplina (SEPM, 2023; VEIGA, 2016).

The gestão moderna da segurança pública propõe que a eficiência policial não deve ser medida apenas pela obediência hierárquica, mas pela legitimidade da ação perante a sociedade civil. A transição da "ética do enfrentamento" para a "ética da cidadania" exige que os pilares militares sejam ressignificados para apoiar uma atuação transparente e pautada no respeito aos Direitos Humanos. Nesse sentido, a hierarquia deve servir como um fluxo organizado de responsabilidade administrativa e a disciplina como o compromisso ético com a legalidade democrática, superando o mito do "policial caçador de bandidos" em favor de um servidor público profissionalizado (SENASP, 2026; SINPF/SP, 2021).

The relação intrínseca com o Exército também se manifesta na utilização de armamentos, táticas e tecnologias que muitas vezes extrapolam a necessidade do policiamento preventivo, aproximando-se da letalidade de guerra. Essa "militarização do cotidiano" na cidade do Rio de Janeiro é fruto de um processo histórico onde a corporação foi incumbida de conter crises sociais e políticas, atuando como o braço armado do Estado para a manutenção do status quo. A trajetória institucional da PMERJ revela que o ethos militar foi consolidado como uma resposta às instabilidades do período imperial e republicano, tornando-se uma característica definidora de sua razão de ser (ARANTES, [s.d.]; SCIELO, 2020).

Legitimação e autoridade no modelo militarizado derivam da simbologia do uniforme e do porte de armas, elementos que reforçam a distinção entre a força pública e a população civil. Contudo, no paradigma da polícia cidadã, a verdadeira autoridade é conquistada através do reconhecimento social de que a polícia é justa e imparcial. A descentralização moderada do sistema brasileiro permitiu que as polícias militares mantivessem sua autonomia militar, mas a falta de coordenação múltipla entre as agências de segurança e justiça dificulta a integração de dados e a resolução científica de problemas criminais na polis urbana (SENASP, 2026).

A análise dialética entre o fato histórico da militarização e o valor moral da cidadania é essencial para compreender os dilemas da PMERJ no século XXI. Seguindo a perspectiva do Pós-Positivismo, o Direito e as normas que regem a atividade policial não podem ser vistos apenas como dogmas rígidos, mas como instrumentos que devem ser constantemente legitimados pelo discurso democrático. A hierarquia e a disciplina, quando despidas de seu propósito de serviço ao público, tornam-se cascas vazias que podem abrigar o autoritarismo; quando integradas ao dever-ser democrático, tornam-se ferramentas de profissionalismo e responsabilidade (ESTÁCIO, 2026.1).

Conclui-se que o ethos militar da PMERJ, construído ao longo de mais de dois séculos em simbiose com o Exército Brasileiro, é um elemento de força e, simultaneamente, um ponto de tensão institucional. A preservação da ordem pública em um ambiente complexo como o Rio de Janeiro exige uma estrutura resiliente e disciplinada, mas a evolução da sociedade demanda uma polícia que seja, acima de tudo, sensível aos conflitos sociais e protetora das liberdades individuais. O equilíbrio entre a tradição militar e a modernização da gestão cidadã permanece como o principal desafio da trajetória histórica e institucional da corporação (ARANTES, [s.d.]; SENASP, 2026; REVISTA CNCG, 2021).


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